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GERAÇÃO SELFIE OU SELFISH ???

Aos 69 anos, o sociólogo francês Michel Maffesoli, considera o selfie uma expressão contemporânea da iconofilia. Torna visível a força invisível da tribo. Para ele, essas relações tribais, especialmente entre os jovens, levam a um outro quadro: quer-se tanto viver em sociedade que os jovens se preocupam mais em se acomodar ao mundo ? e não a querer transformá-lo. 

O retrato,aliás,o autorretrato é o seguinte: de manhã despertamos com o celular, zapeamos as notícias no tablet, conferimos o trânsito na rádio, tarde adentro ziguezagueamos no trabalho entre abas e abas repletas de imagens, letras e links, à noite assistimos à TV para pensar na vida ? e às vezes para não pensar?, marcamos um bar com os amigos no Facebook, narramos o evento no Twitter e fotografamos o quão divertido está o encontro no Instagram. Socializamos o tempo todo, compartilhamos o tempo todo, curtimos o tempo todo. Curtimos?

 
Em maio de 2014, o Estado de São Paulo publicou uma matéria intitulada "Retrato de uma Juventude"  e aqui transcrevemos algumas observações interessantes sobre o assunto em questão.
 
Podemos dizer que, na pós-modernidade, as mídias estão se tornando mais e mais importantes, especialmente as chamadas mídias sociais. Lembremos Hegel, que dizia no século 19: a leitura do jornal é a oração do homem moderno. Podemos pensar que as mídias interativas serão a oração do homem pós-moderno. Contrariamente às críticas tradicionais, porém, acredito que essas mídias favorecem a mediação, isto é, a relação e a inter-relação entre as pessoas. Se a modernidade, particularmente no seu momento final, viu o triunfo da multidão solitária pós-modernidade nascente verá se desenvolver uma multiplicidade de novas tribos urbanas, cuja essência é o relacionismo.
 
Com os avanços tecnológicos, nós estamos observando a emergência de uma geração selfie?
 
Certamente o selfie está no ar. Entretanto, na minha opinião, essa mise en scène de si mesmo não é, como se costuma dizer, o símbolo de um aprisionamento de si. Nessa perspectiva, discordo dos teóricos que abordam abusivamente o narcisismo. Prefiro dizer que os selfies compõem a forma contemporânea da iconofilia. Assim, podemos indicar um narcisismo tribal. Isso quer dizer que, ao difundir essas fotografias, nós pretendemos nos posicionar em relação aos outros da tribo. Se traçarmos um paralelo com uma imagem religiosa, o selfie tem uma finalidade sacramental, que torna visível a força invisível do grupo. O que me liga aos outros da minha tribo? Nós nos definimos sempre em relação ao outro. Assim, o fenômeno tribal repousa essencialmente no compartilhamento de um gosto (sexual, musical, religioso, esportivo, etc.). É preciso dizer que essa partilha cresce exponencialmente com o desenvolvimento tecnológico. 
 
Nas mídias sociais, publicamos selfies sempre felizes. Somos tão felizes? Ou filtramos nossos retratos justamente para esconder nossas angústias atuais?
 
De fato, as mídias sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc.) tendem a dar uma figuração feliz de nós mesmos. Certamente não estamos sempre felizes. Mas há aí um movimento de pudor: nós tendemos a dar à tribo, ou às diversas tribos às quais pertencemos, imagens reconfortantes de nós mesmos. No entanto, historicamente, é preciso lembrar que os quadros e as esculturas, as imagens próprias a todas as civilizações destacaram essencialmente essa figuração de felicidade. Os últimos livros de Michel Foucault (História da Sexualidade: O Cuidado de Si e História da Sexualidade: O Uso dos Prazeres mostram que isso marcou a Grécia e a Roma antiga. Foi o caso também na Idade Média. Para resumir em uma expressão: isso traduz um pudor antropológico, que é um elemento essencial do viver em sociedade.
 
Há quem argumente que a tecnologia está nos tornando antissociais. Temos muitos amigos no Facebook, mas estamos mais solitários?
 
Contrariamente aos críticos que sublinham o isolamento crescente, que seria característico das megalópoles pós-modernas, considero que a multidão solitária ? na minha expressão, a solidão gregária ? é uma das especificidades da modernidade decadente. Paradoxalmente, o desenvolvimento tecnológico não nos direciona ao antissocial. Tende, ao contrário, a consolidar essa mise en relation ? no seu sentido forte e etimológico, o comércio das ideias, dos bens, dos afetos. É evidente que o termo amigo particularmente no Facebook não pode ser reduzido à concepção de amizade clássica, feita de relações intensas e recíprocas. Entretanto, a multiplicidade de amigos nos permite saber, se necessário for, onde e com quem manter relações sociais. E uma das pistas que será preciso estudar sobre o desenvolvimento tecnológico próprio às mídias sociais é a emergência de novas formas de generosidade e de solidariedade, nas quais os uns e os outros são causa e efeito de uma horizontalização societal. 
 
Divulgado nos últimos dias, um estudo da OMS mostrou que a depressão é a principal enfermidade entre os jovens. A vida virtual e a fragilidade das relações tête-à-têteteriam impacto nessa geração? 
 
É preciso ter bastante cuidado com os diversos estudos institucionais focados principalmente no campo da saúde, que tendem a dizer que a depressão é a doença específica das jovens gerações. Valeria questionar se essa depressão não é característica das gerações no poder, quer dizer, das próprias gerações que comandam esses estudos e que talvez, num processo de compensação como destacou o psicanalista Carl Gustav Jung, tendem a projetar ao exterior o mal-estar que nós mesmos sofremos. 

Há tempo para contemplação do mundo atualmente?

No livro A Contemplação do Mundo, o sociólogo tenta  demonstrar que a tendência geral da pós-modernidade, perceptível particularmente nas jovens gerações, consiste menos em querer mudar o mundo ? e mais em se acomodar ao mundo. Adaptar-se, ajustar-se a ele. Isso pode nos conduzir a evitar a devastação, cujos â??saquesâ? ecológicos são exemplos cotidianos. Com o sociólogo italiano Massimo De Felice, no Centro de Pesquisa Atopos da Universidade de São Paulo (USP), tentamos justamente desenvolver pesquisas sobre essa ecosofia. Acredito que é assim que precisamos compreender o ritmo da vida, isto é, pensar a existência a partir de um ponto fixo ? a natureza, o território ?, todos os elementos que fazem com que o ambiente social dependa do ambiente natural. Se a modernidade foi um pouco paranoica, levando à dominação e à devastação do mundo, na pós-modernidade uma nova sabedoria está em gestação. 

 
Por fim, a tecnologia é um meio? Ou uma mensagem?
 
É habitual considerar que, com a prevalência de um racionalismo exacerbado, a tecnologia moderna contribuiu para um desencantamento do mundo. No entanto, na minha opinião, é paradoxal observar que, atualmente, esse desenvolvimento tecnológico, especialmente nos seus usos sociais, nos direcionam a um reencantamento do mundo. Nessa perspectiva, as mídias sociais são ao mesmo tempo um meio e uma mensagem, que confortam a vida em sociedade. Se a modernidade se firmou a partir de um princípio individualista, a tecnologia pós-moderna abriga um relacionismo galopante ? uma relação, como frisei, entre nós e os outros. 
 
Michel Maffesoli é sociólogo, teórico da pós-modernidade e autor de 'O tempo da tribos', entre outros livros.                                     Fonte de consulta: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,retrato-de-uma-juventude,1167792

Fonte: Assessoria de Mídia - Cedeppe